quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Teste de HIV / AIDS e vistos para Angola

A primeira vez que ouvi sobre o assunto me espantei, como um país pode condicionar a concessão de vistos de entrada mediante a apresentação de teste de HIV. Após algum tempo em Angola pude perceber que a considerar a mentalidade do país isso não é em nada um disparate. Longe de mim fazer juízo de valor, contudo as minhas convicções são totalmente diferentes dessa prática. Ora, uma pessoa contaminada com o vírus da HIV, que não necessariamente está doente, deve ser tratada da mesma forma que uma pessoa que não possui o vírus.

No Brasil é proibida por lei a discriminação em caso de pessoas soro positivo. Os direitos e deveres de ir e vir são exatamente iguais para a pessoa que possui e a que não possui o vírus.

O Angolano que pensar em defender o ponto de vista do governo basta apenas refletir sobre a seguinte questão. É sabido que a África tem alta incidência de HIV/AIDS na população, assim, o povo de Angola deve ser visto com distinção por causa disso? Deve ser dificultado o direito de ir e vir desse povo por conta desse conceito ou preconceito, como preferir?

O fato é que para se solicitar hoje um visto de trabalho para o país é necessário anexar um exame de HIV. Obvio que se é pedido, no caso de um resultado de contaminação, o visto pode será negado.

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Teste de HIV condiciona concessão de vistos de entrada para Angola Angolense (Elsa Alexandre)
www.angonoticias.com/full_headlines.php?id=13566

As embaixadas angolanas representadas em vários países exigiram aos participantes do primeiro acampamento lusófono dos Direitos Humanos, decorrido recentemente em Luanda, a apresentação de resultado do teste de VIH como condição imprescindível para receber o visto de entrada no país

Não se sabe de onde procede tal ordem, mas segundo os envolvidos essa situação vem agravar as dificuldades de concessão de vistos e ofende directamente os direitos humanos.

"Tive bastantes dificuldades para consiguir o visto, pois eles não nos tinham avisado que para nos concederem a autorização de entrada teríamos de fazer o teste", contou Arminda, activista pelos direitos humanos de nacionalidade moçambicana.

A mesma disse ainda que não lhe foi explicado o motivo daquele comportamento, o que a fez concluir que caso o seu resultado fosse positivo ela seria privada de viajar.

Os participantes do acampamento que se debruçou sobre a situação dos direitos humanos ficaram horrorizados com aquela revelação, não tendo compreendido os verdadeiros motivos para que as embaixadas, que presumivelmente deveriam estar totalmente informadas sobre os direitos do homem e dos seropositivos, agissem dessa forma.

Segundo nos informou Daniela Ikawa, coordenadora de uma organização não governamental brasileira, na embaixada de Angola no Brasil já é habitual esta prática. "Já há algum tempo que eles pedem o resultado do teste para darem o visto", realçou.

Mais adiante realçou que desconhece o caso de algum solicitante de visto que tenha apresentado resultado positivo, pelo que desconhece qual será a reacção da embaixada neste caso. Ainda assim arrisca: "Não duvido nada que eles não permitam que essa pessoa viaje", afirmou.

Segundo a Carta Angolana sobre VIH e Direitos Humanos "todas pessoas seropositivas têm direito a liberdade e o Estado não pode privá-las desse direito pela única razão de serem portadores do VIH".

Ainda segundo o artigo terceiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos "Todo indivíduo tem direito à vida, liberdade e segurança pessoal".

Já o artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que "todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direito".

Com vista a eliminação de toda forma de desrespeito aos Direitos Humanos, associações de luta pelos direitos do homem encaminharam uma carta ao Director da Unidade Técnica de Coordenação da Ajuda Humanitária, bem como aos Ministérios de Relações Exteriores, Reinserçao Social e aos Serviços de Migração e Estrangeiros a denunciar tais procedimentos.

De realçar que não há notícia de que embaixadas acreditadas em Angola exijam a apresentação de teste de HIV para concessão de vistos.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Post nº100

Cidades que já acessaram o blog


É com grande alegria que escrevo esse post. O blog chega hoje a sua publicação de número 100. Inicialmente o blog começou com uma forma de ir me adaptando a outro projeto, tornar-me correspondente do Jornal do Comercio de Recife, contudo hoje o blog tem vida própria e é com muito gosto que o publico. Além disso, queria diminuir a distancia com minha família e amigos contando tudo o que esta me acontecendo. Não tinha a pretensão de ser uma referencia de informações sobre Angola, entretanto cada vez mais as pessoas me falam isso. Existe pouco material como o que escrevo e dessa forma acabo ajudando aos que desejam conhecer um pouco mais sobre o país. A grande ambição desse blog é vir a se tornar um livro.

Esse blog tem me trazido muitas alegrias como o reencontro com velhos amigos ou pessoas conhecidas, contato com pessoas interessantes como o editor do portal G1, a jornalista do jornal Valor Econômico e o editor e blogueiro do jornal Estado de São Paulo Alexandre. Através dele também tenho recebido e-mails das mais diversas partes do mundo como dos EUA, várias cidades do Brasil, Namíbia, Portugal, etc..

O conteúdo tem se transformado à medida que o tempo passa. Por vezes escrevo sobre o cotidiano, outras sobre a história ou fatos importantes do país, outras ainda serve como espaço para uma reflexão ou ainda um diário para situações pessoais que acontecem.

Gostaria imensamente de agradecer aos leitores que acompanham e me escrevem. Algum tempo atrás comecei a ficar desmotivado, passei um tempo recebendo poucos comentários e comecei a achar que estava escrevendo para mim mesmo. Foi então que descobri um serviço da Google chamado Google Analytics - www.google.com/analytics/pt-BR/. Desejava algo que me informasse a quantidade de acessos a página e acabei descobrindo muito mais que isso. Além de monitorar a quantidade de acessos e de page views, o serviço me mostra as cidades que acessam o meu blog. Foi então quem veio a surpresa e um grande motivador. Com pouco mais de 15 dias, desde que comecei a monitorar, percebi a diversidade de cidades que acessam o blog. O blog já foi acessado pelos continentes, América do Sul, América do Norte, Europa, África, Ásia e Oceania. Existe um pequeno mapa global que me mostra as cidades através de pequenos pontos, ao se passar o mouse sobre eles o nome da cidade é exibido. Esse mapa é o que está sendo mostrado nesse post. Cada pontinho corresponde a pelo menos um acesso nesse local. Fora isso tem uma média de 35 acessos diferentes por dia com 70 page views.

Muito obrigado aos que acompanham a publicação. Todas as vezes que alguém me escreve respondo o mais rápido possível. Continuem a me escrever. Caso queiram que eu pesquise algo, fiquem a vontade para me enviar o comentário.

Um forte abraço a todos e que vamos rumo ao nº200.

domingo, fevereiro 25, 2007

Pessoas nas ruas


Pessoas nas ruas de Luanda


Com o fim da guerra e a destruição da infra-estrutura, um processo de industrialização engatinha. Contudo a dificuldade para se qualificar as pessoas, que não estudavam na época da guerra, e mais ainda uma característica de Angola com muitas tribos e uma população vivendo isolada no interior, impede um aproveitamento melhor da mão de obra local.

Chegam-se as seguintes características, crescimento de investimentos acelerado, contudo falta de infra-estrutura e pouca qualificação de mão de obra local. O resultado disso tudo é que nas tuas da capital Luanda, todos os dias, o que mais se vê são pessoas sem fazer absolutamente nada.

Há ainda de se considerar a baixa violência e a dificuldade de se ter em casa luz e água, o que leva, com mais esse motivo, a demonstração explicita do ócio. Chega a dar impaciência ver a quantidade de pessoas que vagam de um lado para o outro, sem rumo, simplesmente por não ter o que fazer. Fora isso todos os dias vejo pessoas dormindo nos lugares mais estranhos. Outro dia vi um rapaz dormindo no que deveria ser um canteiro de cimento onde uma muda de uma árvore se faz presente.

A falta de qualificação leva a situações engraçadas. Há de se colocar que não apenas a falta de educação, mas a falta da cultura do trabalho, trabalho em equipe, foco no resultado e coisas do tipo. Os Chineses importam para Angola mão de obra para cavar buracos. Impressionante não? Tudo bem que no caso dos Chineses há mais coisas para se colocar, mas isso fica para outro post. Contudo mesmo os Brasileiros fazem tem a mesma postura. Conheci uma empresa que contratava o pessoal mais operacional possível do Brasil. Trouxeram para cá trabalhadores da construção civil dos níveis mais baixos. Absolutamente nada contra essas pessoas, mas pensando bem, se a mão de obra local não fosse tão complicada de se trabalhar, não seria necessário trazer esse tipo de mão de obra do Brasil.

Como estarão essas pessoas que ficam nas ruas nos próximos anos?

sábado, fevereiro 24, 2007

E-mail de uma ex-namorada. Mais que uma surpresa, um presente!

Procuro sempre falar sobre a África, sobre Angola, pois acredito que é isso que as pessoas mais gostam de ler aqui no blog. Contudo falar sobre minhas alegrias e tristezas, sobre as coisas que passam na minha cabeça, o que sinto é com certeza irresistível. Tento não me expor demais, mas fico imaginado uma pessoa lendo essas histórias e curtido em me ver bem ou não tanto. Será que estou criando um tamagochi? Ou ainda produzindo um big brother ciber-literário? Leitores me digam do que vocês gostam, assim posso melhorar ainda mais.

Hoje recebi uma carta de uma ex-namorada. Mais do que uma surpresa um presente. Quero dividir o e-mail e a resposta com vocês.

Com certeza uma lição se tira disso: o tempo cura tudo. É preciso aprender, evoluir e mais ainda crescer como ser humano. Estou procurando a cada dia ser melhor.

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O e-mail dela

Oi Spíndola!

Que surpresa heim!? :) Hoje, estava vendo algumas fotos no orkut e encontrei vc. Fiquei muito contente em saber um pouco da sua vida, de como vc está e qual o caminho que vc segue. Como também, muito feliz pelo seu sucesso profissional. Sempre soube que vc consegueria. Inteligente, esforçado, competente, responsável... estou muito feliz. Sua mãe deve estar realizada, sua irmã querida e seu pai também. Mas, resolvi te escrever pois fiquei bastante comovida e feliz com o seu depoimento. Por um simples amor de adolescência fazer parte de um momento feliz da sua vida. Sei que quando tudo acabou te fiz sofrer e a muito tempo que queria te pedir desculpas pela maneira como tudo acabou. Da mesma forma que te fiz feliz também te fiz sofrer. Mas, ainda bem que o tempo amadurece as palavras, os atos e a tudo faz passar. A psicologia me ensinou a compreender muita coisa e a entender o comportamento humano. Me ajudou a amadurecer o que, felizmente só conseguimos vivendo, errando, acertando e reconhecendo quando erramos, por isso mudamos e amadurecemos. Dezoito anos não sabemos nada da vida ainda, tudo é sonho. Espero que tenhas me compreendido.
Desejo que todo este esforço, essa batalha, que para vc deva ser contra a saudade, te traga um futuro lindo, com lindos frutos colhidos e novamente semeados. Tenho certeza que vc irá conseguir! Que Deus esteja sempre com vc Spíndola!
Abraços da amiga XXXXXXX.


Minha resposta

Oi XXXX


Realmente que surpresa, mas que surpresa maravilhosa. Você faz parte do meu baú de lembranças felizes, simboliza uma época, mais ainda, uma grande paixão.

O tempo em Angola passa diferente, rápido quando estou no trabalho e lento quanto se está fora dele. Já a distância, que percebi que é irmã do tempo, têm me ensinado muitas coisas. Tenho muito tempo para pensar sobre minha vida e é daí que vêm as lições. Uma das lições que estou aprimorando você colocou com muita propriedade “Mas, ainda bem que o tempo amadurece as palavras, os atos e a tudo faz passar”. Vamos combinar o seguinte, você foi uma época boa da minha vida e ponto. Deixemos para trás as tristezas, falhas e qualquer outra coisa chata e desagradável, vamos colocar tudo isso na culpa da imaturidade e da boa e saudosa adolescência.

Quanto às desculpas, as aceito, pois na verdade já havia feito a muito tempo. Contudo aceito se você aceitar as minhas. Tenha certeza que você não precisa se desculpar, eu sim preciso lhe agradecer, pelos momentos felizes e pelas lições. Existem certas coisas que só mesmo passando para se saber como é, o que passamos juntos faz parte disso.

O lado profissional vai bem, tenho me esforçado e tudo isso aqui faz parte de uma caminhada que acredito não terá fim. O trabalho faz parte da vida e da felicidade e ou da procura dela. Hoje me dedico ao lado profissional por inteiro, quero um dia olhar para trás e sentir orgulho do que fiz. Além disso, esse trabalho atual envolve mais que o crescimento pessoal, profissional ou mesmo o retorno financeiro. Trabalho ajudando a desenvolver o projeto de combate a Aids de Angola. As vezes me pego pensando sobre isso, é muito louco estar na África trabalhando com Aids, parece até coisa de livro. Com o meu trabalho posso ajudar muitas pessoas, e isso tem um valor que move para frente e me faz desejar estar aqui. Sinto que o meu trabalho realmente faz a diferença e que com o tempo poderei ajudar ainda mais, contribuir mais.

Como você está? Está casada? Ainda com aquele antigo namorado? Da última vez que te vi, isso já faz um tempo, você estava no shopping com ele. Continuava a mesma coisa, parece que os anos não se fazem notar em você, continua linda. Naquele dia quis conversar com você, mas, bom ficou só na vontade. Quem sabe em uma outra oportunidade você não possa me apresentar ele.

Lembrei agora daquele seu cachorro que ficava perto do sofá, acho que ele não gostava muito de mim. Sua irmã também que na época era uma menina e agora deve estar uma mulher linda. Seus pais, e os tios que moravam no andar de baixo e se não me engano tinham um menino. Lembrei também de uma vez que comprei um sorvete e tomei com eles sentado no chão. Sua irmã gostava de andar no Buggy, lembra dele, você detestava. Peguei-me agora dando uma grande risada, mesmo o fato de você não gostar do buggy, pois assanhava o seu cabelo, isso é uma recordação engraçada.

Mande notícias, tenha certeza que mais que a surpresa esse seu e-mail foi um presente. Mais uma vez você me fez sentir feliz. Gostei muito também da forma como você acabou o e-mail “Abraços da amiga XXXXXXX”, pois te vejo dessa forma como uma amiga.

Um beijo enorme do amigo Spíndola

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Lá no Recife

Me emocionei! Não tenho como descrever isso senão dessa forma. Hoje li o blog do Zeca Camargo e adorei. As palavras me faltam, melhor deixar que vocês conheçam um pouco da cultura da minha terra e da minha cidade pelas palavras dele.

Parabéns Zeca, excelente comentário!

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Lá no Recife
http://www.zecacamargo.globolog.com.br/archive_2007_02_15_34.html

Mesmo para quem, como eu, já está acostumado com o poder das coincidências, chegar à capital pernambucana bem no dia das comemorações dos 100 anos de frevo (sexta-feira passada) foi uma surpresa. Eu já sabia que 2007 seria o ano desse centenário, mas não me liguei nisso quando marquei uma entrevista (com um dos caras mais brilhantes que já falei, Silvio Meira, cientista chefe do César – Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife – e colunista do G1; mais sobre isso, numa outra oportunidade) que não tinha nada a ver com o Carnaval. Estava no Recife, insisto, por coincidência, justamente numa das temporadas mais festivas da cidade – e foi difícil não me contagiar pelo clima das ruas.

Não, não cheguei a sair em nenhum bloco, nem do Recife, nem de Olinda – e olhe que não faltou convite. Ficava imaginando a animação de cada um deles – um delicioso exercício abstrato a partir de nada além dos seus nomes: “Quanta ladeira”, “Vai morrer pra lá”, “Vai dar na praia” (um daqueles raros trocadilhos bons), “Enquanto isso na sala de justiça” (no qual, me contam, é de bom tom ir fantasiado de super-herói!), “Acorda pra tomar gagau” (?), “I love cafuçu” (??), “Guaiamum treloso” (???), além dos surreais “Que sunga horrível” (batizado, segundo a lenda, por causa de um cara que apareceu com uma sunga indescritível para brincar o Carnaval – e foi imediatamente imitado por um grupo de amigos) e “Eu acho é pouco” (meu favorito absoluto).

No Rio de Janeiro, onde passo o Carnaval seguidamente desde 1996 (por razões principalmente profissionais – mas também por certo gosto...) já me deparei com blocos de nomes não menos curiosos, como “Suvaco de Cristo” ou “Concentra, mas não sai” – sem falar nos mais... esculachados, como “Rôla preguiçosa”... Mas a criatividade nominal dos blocos pernambucanos chamou mais ainda minha atenção e acabou ampliando minhas expectativas de uma boa festa – todas já sabidamente impossíveis de se realizar, uma vez que eu voltaria no sábado de madrugada para o Rio. Para “arrefecer”, precisava de uma espécie de antídoto, algo que me levasse para longe daquele espírito carnavalesco, e fui buscar refúgio naquela que eu acho que é uma das livrarias mais bonita do Brasil, a Livraria Cultura do Paço Alfândega (Recife).

Não foi tarefa simples, uma vez que, mesmo lá, nossa maior festa popular estava em destaque nas prateleiras principais. Mas, fuçando na sessão de CDs, encontrei um “velho amigo” chamado Eddie. As aspas não são gratuitas, uma vez que Eddie não é exatamente uma pessoa, mas uma banda – pernambucana, claro. Até hoje não sei dizer direito como o segundo disco deles, “Original Olinda style”, chegou às minhas mãos (tenho uma vaga lembrança de um envelope pardo, talvez enviado por uma assessoria de imprensa... mas são tantos que posso estar me confundindo). Só sei que, em meados de 2004, eu estava tão entusiasmado com “Eu sou Eddie”, a faixa de abertura, que sugeri, no próprio “Fantástico”, que eles seriam o som de 2005. Ah, os mistérios do pop...

O “estouro” previsto não aconteceu – mas a culpa não foi de quem fez a previsão! Por mim, Eddie era para ser o som do futuro. E, ao reencontrar a banda esta semana e ouvir seu último trabalho, ressuscitei essa esperança. “Metropolitano”, seu CD mais recente, foi gravado em 2005 – mas apresenta todo o vigor que me fascinou da primeira vez. Deixe-me voltar um pouco para a faixa “Eu sou Eddie”: quando a escutei pela primeira vez, mal conseguia controlar o entusiasmo; é daquelas músicas que não têm quase nada, é quase um mantra. A letra não passa de um verso de auto-afirmação – que é também seu título. E, como suporte, um som que era um misto de rock e eletrônico, mas tudo mínimo – minimalista. Ou talvez “Eu sou Eddie” não seja nada disso, mas no final, oferece uma daquelas misturas onde os ingredientes são tão subliminarmente interligados que você simplesmente desiste de detectá-los – e simplesmente curte a música. E a faixa dava o tom para o resto do CD – um tom presente também em “Metropolitano”.

Que tom é esse? Justamente o da mistura sutil. Na faixa-título, por exemplo, você vê notas de Gotan Project, Tom Zé, uma pitada de Aphex Twin, Adam and the Ants, e até um semba (um ritmo angolano que meu corretor ortográfico insiste em corrigir para “samba”...). “Maranguape”, a faixa seguinte, tem um pouco de rancho, de samba (agora grafado sem a ajuda do corretor), algo daquelas bandas folclóricas dos Bálcãs – e outros sons de difícil identificação... Na faixa 4, “As flores e as cores”, um pop arretado usa uma paleta que vai da Tropicália aos Tribalistas. “Danada” finge que vai ser um samba-canção, chama um violino, passa pelo Caribe, joga uns efeitos eletrônicos quase cafonas e só lá no finalzinho vem com um punhado de versos baratos e sublimes. E em “Vida boa”, a faixa mais próxima de um frevo – frevo mesmo! –, Eddie vem com um irresistível refrão infinito: “A gente tá querendo a vida boa, boa como a vida de outras pessoas, outras pessoas que também querem uma vida boa, boa como a vida de outras pessoas”. Êita!

Inspirado pela (re)descoberta de Eddie, perguntei ao cara que estava me atendendo na livraria se ele poderia me sugerir outra coisa naquela linha – pedido um pouco sem noção, confesso. Mas que acabou valendo a indicação do novo trabalho do Cordel do Fogo Encantado. Não tem nada a ver com Eddie, mas o tal cara, intuitivamente (como sempre acontece nas lojas de disco) achou que eu ia gostar. Aceitei a sugestão, mas não sem antes ouvir um “pito educado” por não conhecer essa banda (se você é pernambucano e/ou fã do Cordel há anos, deve estar achando graça...). Minha ignorância, diga-se, não era total. Já havia lido sobre shows da banda – sempre com elogios. Baseado apenas nisso, devo ter registrado o Cordel do Fogo Encantado na categoria “música regional” – e deixei por isso mesmo. Chegou a hora de rever alguns conceitos.

Ajudado pela capa do CD “Transfiguração” (que curiosamente me lembrava a de “Fizheuer Zieheuer”, de Ricardo Villalobos, já comentado aqui), resolvi embarcar no som do Cordel, e tive mais uma lição da cartilha que estudo há tempos: com cultura, deixe sempre o preconceito do lado de fora... De cara percebi que o som deles vai bem além do regional – e que as misturas e influências que eles incorporaram acabaram resultando num rico conjunto musical.

Para saber mais, fui, claro, à internet (www.cordeldofogoencantado.com.br). Vi logo que as referências que eu tinha das suas apresentações ao vivo não eram meros comentários, mas sim elogios fortes de admiradores cativos. Descobri que o grupo surgiu no teatro, e que “Transfiguração” – o terceiro CD deles – é o primeiro que não é derivado de um espetáculo (aliás, pelo contrário, surgiu primeiro como um corpo musical para depois ganhar o palco). E fiquei curioso o suficiente para ouvir o trabalho pela segunda vez – e com atenção redobrada.



É uma avalanche. Da embolada de “Aqui (ou memórias do cárcere)” ao canto transformado de “O lamento das águas sagradas”, ou da esquisitice de “Canto dos emigrantes” ao tom épico de “Morte e vida Stanley”, cada canção do Cordel é uma cascata de texturas – um convite a repetidas audições.

Passei o fim de semana na companhia desses dois grupos, me divertindo com Eddie e me intrigando com o Cordel do Fogo Encantado. Se os blocos do Recife e de Olinda não conseguiram me arrastar desta vez, coube a essas bandas a missão de eu voltar para casa com uma boa lembrança de Pernambuco. Aliás, como sempre...

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Minas terrestres – 5 a 7 milhões em Angola

Uma das características que chama mais atenção de um Brasileiro ao chegar em Angola é a questão das minas terrestres. O Brasil um país que, tirando o período militar e alguns poucos conflitos com paises a alguns anos, é considerando bastante pacifico. Pouco se fala em guerra por lá e esse assunto parece realmente bem distante.

A algum tempo vi na rua um carro sinalizado de um empresa que realizava a desminagem em fazendas e ou qualquer local que se desejasse. Fique pensando sobre o assunto, como essa situação é inusitada e trágica. Imagine você comprar uma fazenda, ou mesmo um sítio para passar os finais de semana com a sua família, coisa bem comum no Brasil. Antes de montar a sua casa ou deixar os filhos brincarem no local é necessário chamar uma empresar para retirar possíveis minas no local.

Comecei a pesquisar e encontrei um instituto - Instituto Nacional de Remoção de Obstaculos e Engenhos Explosivos, www.inaroee.ebonet.net/index.pt.html - ligado ao governo de Angola através do ministério de assistência e reinserção social (MINARS) que realiza o trabalho de deminagem do território Angolano. Criado em 1995 esse instituto conta com delegações provinciais em 7 das 18 províncias de Angola.

O aspecto mais desumano das minas terrestres é que elas continuam a matar e mutilar mesmo depois do termino do conflito. Em Luanda é possível ver várias pessoas nas ruas que perderam seus membros como pernas e braços. Além disso, quando perguntamos aos motoristas, eles falam de casos de mortes de pessoas próximas ou mesmo de acidentes com minas.

No site do instituto existe uma expectativa de existência de 5 a 7 milhões de minas não detonadas em Angola. Foram registrados por essa mesma entidade 1607 acidentes e 2638 vítimas entre 1995 e 2001.

No jornal de hoje saiu uma matéria sobre o trabalho de conscientização da população. Um belo trabalho esse do governo de Angola.

Crianças alertadas sobre risco de minas
http://www.jornaldeangola.com/artigo.php?ID=57008&Seccao=geral


Trinta menores, de diferentes escolas do ensino geral da província da Huíla, vão, a partir de Março deste ano, participar de um encontro denominado “Educação sobre risco de minas para crianças”, numa iniciativa da ONG Acção de Solidariedade e Desenvolvimento (ASD).
Durante dois dias, os petizes abordarão matérias ligadas à partilha de experiências e lições das crianças nas sessões de educação sobre o risco de minas, bem como trocarão ideias tendentes a produção de um manual de orientação metodológica de combate ao risco de minas.
A integração da criança em processos de desenvolvimento comunitário, impa-cto do manual de procedimentos, que será um guião metodológico a ser introduzido no processo docente-
educativo nas escolas do país, são outros temas previstos para serem abordados no evento.
Em entrevista à Angop, no Lubango, o coordenador da ASD, Renato Raimundo, explicou que o encontro visa proporcionar a criança o seu desenvolvimento em programas sócio-educativo, visando a sua inserção integral no quadro da Convenção sobre os Direitos da Criança.
Adiantou estar prevista a participação de crianças dos municípios do Lubango, Quipungo, Cacula, Chicomba, Caluquembe e Caconda.
A acção, primeira do género, conta com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e da Comissão Intersectorial para a Desminagem e Assistência Comunitária (CIDAC).

Se conselho fosse bom, era vendido!

A minha intenção realmente não é fazer terrorismo, contudo a poucos posts atrás falei sobre a valorização do real frente ao dólar, um fator de risco para o Brasileiros que trabalham em Angola.. Para alguns especialistas, como o citado abaixo, o dólar pode chegar a R$ 1,54.

Difícil dizer até onde o valor vai chegar, contudo que a tendência é a desvalorização do dólar, isso com certeza.

Agora o conselho: vendam os dólares que estejam guardando em casa antes que esse se desvalorize ainda mais.

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Em termos reais, dólar deveria valer R$ 1,54, aponta Merrill Lynch
http://web.infomoney.com.br/templates/news/view.asp?path=/investimentos/&codigo=653731

Por: Felipe Abi-Acl de Miranda
21/02/07 - 16h00
InfoMoney

SÃO PAULO - Mesmo diante da tendência já duradoura de queda do dólar, a moeda brasileira ainda se mantém subvalorizada em termos reais, concluiu a Merrill Lynch em relatório publicado na última terça-feira (20).

Segundo estimativas do banco de investimentos, o valor justo para a taxa de câmbio em termos reais seria de R$ 1,54, cerca de 25% menor frente à atual cotação de cerca de R$ 2,08.

Atrás apenas dos hermanos
Para os analistas, o real é a segunda moeda mais subvalorizada da América Latina, ficando atrás apenas do peso argentino neste critério, cujo valor justo está quase 40% abaixo da atual cotação do câmbio.

Basicamente, dois grandes fatores explicam a "artificial desvalorização" do real, afirma a Merrill Lynch. O Brasil apresenta um saldo positivo em conta corrente, contrapondo-se à projeção de déficit nesta linha do balanço de pagamentos no médio prazo.

Ademais, o banco estima a necessidade de uma redução em cerca de US$ 10 bilhões no superávit em conta corrente para promover este ajuste.

Revertendo o quadro?
Além de apontar os determinantes desta taxa de câmbio depreciada, a Merrill Lynch identificou quais aspectos poderiam reverter a tendência.

O superávit em conta corrente - principal fonte do "desequilíbrio" - poderia ser reduzido por um aumento da demanda agregada doméstica, o que elevaria as importações, ou por uma desaceleração mais forte da economia mundial, salientam os analistas da instituição.

Mais detalhes
E recentes indicadores da economia brasileira vêm dando sinais de retomada da atividade, à medida que os juros continuam sendo reduzidos. Já a economia mundial parece se inclinar em direção a uma desaceleração apenas gradual, depois de diversas referências nos EUA afastarem a possibilidade de recessão.

Os dois componentes apontam em sentidos antagônicos, tornando difícil a previsão para o comportamento futuro do dólar. No curto prazo, porém, uma total correção desta subvalorização do real parece pouco provável.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Desfiles carnavalescos em Angola

Fui convidado ontem para ver o desfile de alguns grupos carnavalescos de Angola. O desfile ocorreu na ilha. Apesar de querer sair de casa, o tempo ruim me fez mudar de idéia, oque se mostrou uma decisão correta. Sérgio, que havia me convidado, hoje pela manhã me falou que a chuva foi intensa e que devido a isso ele havia se arrependido de ter ido.


A pergunta que me veio foi: O carnaval foi de Angola para o Brasil ou voltou do Brasil para Angola?


A chuva essa noite foi realmente pesada. Mais uma vez as barreias do Samba caíram e ficamos impedidos de passar para vir para o trabalho. Como resultado duas horas de engarrafamento para chegar ao centro. Fico realmente sensibilizado com a forma como as chuvas castigam essa cidade. Lembro-me de Recife e das vezes que não íamos para o colégio devido ao alagamento da rua na frente da nossa casa.


Abaixo uma reportagem do jornal de Angola sobre a chuva que atrapalhou o desfile.

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Chuva interrompe Carnaval

http://www.jornaldeangola.com/artigo.php?ID=56916&Seccao=cultura


Entrudo: Desfile central de Luanda será concluído amanhã na Marginal

Independentemente das fortes chuvas que se abateram sobre a capital, os integrantes das equipas carnavalescas não se inibiram, mesmo depois de a comissão organizadora ter suspenso a exibição dos grupos, devido a intensidade das cargas das águas. Mais do que as palavras, as imagens captadas pelos nossos repórteres falam por si. Em suma, pode-se dizer que o Carnaval é mesmo a maior manifestação cultural dos angolanos, durante a qual dá para se esquecer, ainda que momentaneamente, alguns dissabores que sobrecarregam a vida dos cidadãos.


Joaquim Cabanje

O desfile central provincial da edição 2007 do Carnaval, interrompido devido a intensa chuva que se registou ontem à noite na capital, será concluído amanhã às 18 horas com a exibição dos cinco restantes grupos. A informação foi prestada ao Jornal de Angola pelo coordenador da Comissão Provincial de Luanda do Carnaval, Manuel Sebastião.

A fonte acrescentou que, em consequência do adiamento, a publicação dos resultados finais foi remarcada para sábado, ao invés de hoje. Ontem, o desfile começou com o grupo União Kiela do Sambizanga, agremiação que foi homenageada este ano pelo Ministério da Cultura. Acto contínuo, seguiu-se o início do certame aberto pelo União Operário do Rangel.

Este grupo exibiu um carro alegórico, onde os operários mostravam como é fundido o ferro, uma demonstração do nosso operariado. Algumas mulheres, na última fila da equipa, traziam na cabeça quindas com produtos do campo, mormente mandioca e banana.

Os grupos “União 10 de Dezembro” e “União 54”, ambos do município da Maianga, exibiram-se no estilo semba. O primeiro foi um dos que mais chamou a atenção, sobretudo devido à sua canção, cuja referência cingiu-se à protecção da Palanca Negra e dos parques nacionais. A canção esclarece que “bem abençoada a nossa terra. As armas calaram-se e a Palanca está de volta”.

Da Maianga ainda veio o “União 54”. Foi uma verdadeira reprodução do que foi exibido pelo seu confrade, o “União 10 de Dezembro”. O “União 54” apresentou uma canção que faz menção à organização de campanhas de vacinação e de limpeza à cidade. Oriundos da Maianga, os grupos são fortes candidatos a arrecadar o prémio tabelado em USD 30 mil.

O município do Sambizanga fez exibir dois grupos, nomeadamente “União Kazucuta do Sambizanga” e o “União Operário Kabocomeu”. Ambos demonstrarem o estilo kazucuta. Para alguma crítica foi o “União Operário Kabocomeu” que verdadeiramente deu nas vistas, sendo consequentemente um potencial candidato ao galardão que conquistou apenas uma vez, em 1978.

O Kabocomeu prestou, por intermédio da sua canção, uma homenagem aos Palancas Negras e enalteceu o nome de Oliveira Gonçalves, treinador da selecção principal de futebol, Man Torras, Akwá e Zeca Langa.

No seu carro alegórico, o Kabocomeu mostrou um campo de futebol com as suas respectivas balizas e alguns adolescentes a trocarem a bola. Fez ainda referência ao facto de o nome de Angola ter ido longe, devido à sua participação, pela primeira vez, num Campeonato Mundial de Futebol, desta feita realizado na Alemanha. O seu carro alegórico estava ornamentado com as bandeiras da República.

Desfilaram igualmente o grupo “União Café de Angola” e União Comandante Kwenya, ambos do Kilamba Kiaxi, além do “União Sagrada Esperança” do Rangel.

Para amanhã está prevista a exibição dos quatro grupos que, por causa da chuva, estiveram impossibilitados de o fazer. Trata-se do “Unidos do Caxinde” e “União Mundo da Ilha”, da Ingombota, “União jovens da Cacimba” (Maianga) e “União dos Bondosos” do Rangel.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Carnaval em Angola

Caboclo de lança - Casa em Olinda - Pernambuco - Brasil


Esse meu carnaval foi digamos, igual. Não igual aos outros carnavais, mas igual aos outros finais de semana. Soube de algumas iniciativas, algumas poucas, que tiveram pela cidade, contudo preferi ficar em casa. A melhor oportunidade foi no sábado à tarde, quando houve em um condomínio aqui perto, uma espécie de carnaval improvisado. Vieram até aqui me chamar para o tal carnaval, contudo eu estava dormindo. Uma pena!

Durante todo final de semana foram programas dedicados a festa que foram exibidos pela Globo. Procurei assistir muito rapidamente estes, não queria ficar lembrando. Dessa forma vi o Galo da Madrugada e os trios elétricos de Salvador. Hoje quando acordei ainda estava passando os desfiles das Escolas de Samba.

Se meu carnaval não foi dos melhores, pelo menos meu ano promete. Estou cada dia mais inserido no trabalho. O carnaval, que é uma comemoração, deixo para quando tiver realmente o que comemorar, quando o meu trabalho tiver terminado e for bem sucedido.

Até lá, muito trabalho e foco!

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Profissionais Brasileiros em risco – fortalecimento do Real

Um dos aspectos que mais incentiva a vinda a Angola é a questão salarial. No Brasil a classe média está cada dia mais achatada e o poder de compra só diminui. O reajuste salarial sempre tem como referencia a inflação, contudo a impressão que dá é que o aumento, que nem sempre acontece, é insuficiente.

Aumentos a parte há de se considerar até que ponto, com a cotação do dólar perante o real diminuindo, vale vir trabalhar em Angola. Hoje estamos perto da cotação de R$ 2,00 = U$D 1,00, com uma cotação de R$ 1,50 a questão já não seria tão vantajosa. É fato que conta a experiência internacional, trabalhar fora, que foi o diferencial no meu caso. Entretanto à medida que o tempo passa, a saudade de casa aumenta, e com os salários no Brasil se equiparando aos de Angola, já não valerá vir para cá. Pior ainda, a tendência é ficar cada vez mais difícil contratar profissionais excelentes, o motivo é simples, vai-se ganhar mais no Brasil do que em Angola.

Outra questão é o que fazer com o dinheiro levado para o Brasil. Qual a melhor opção de investimento, manter em dólar, investir na bolsa de valores, renda fixa? Difícil decidir, a maioria das pessoas tem preferido deixar em dólar, guardado em um cofre ou coisa parecida.

Há quem possa dizer que o dólar é uma moeda muito forte e que o governo não vai deixar que ela desvalorize muito. Eu digo que o governo não tem como controlar isso, já que o nosso câmbio é flutuante, mais ainda, as medidas que o Brasil pode tomar para conter essa valorização já não estão tendo mesmo efeito. Quando falo isso as pessoas olham para mim com uma cara de “pronto, só quer ser o entendido”, na verdade as pessoas escutam o que querem escutar e não adianta dizer o contrário.

Se minha análise do mercado não for suficiente, vai ai a de um especialista que gosto muito. CARLOS ALBERTO SARDENBERG, jornalista, é âncora do programa CBN Brasil pela CBN, rede nacional de radiojornalismo. É comentarista econômico dos programas noticiosos da CBN, do Jornal das Dez (da Globonews) e do Jornal da Globo, da TV Globo. Escreve uma coluna em O Estado de S.Paulo, às segundas-feiras, e outra coluna, às quintas-feiras, no jornal O Globo. Mantém um blog no www.g1.com.br.

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DÓLAR A 2 REAIS. E DAÍ?
http://www.sardenberg.com.br/arquivoecdfres.asp?titulo=A%20ALTA%20DO%20D%D3LAR%20E%20A%20CONJUNTURA

Ainda assusta, especialmente os telejornais da noite. Mas o nome do jogo agora é câmbio flutuante. Quer dizer que o Banco Central não tem meta para a taxa de câmbio, não é obrigado a defender uma determinada cotação do dólar.

Ou seja, dólar a 2 reais não é sinal de crise ou de falta de confiança na economia brasileira. Tanto que boa parte do mercado acredita que o BC e o Tesouro gostariam que o dólar não caísse abaixo de R$ 1,95, para estimular as exportações. (Veja bem, não seria uma meta, mas uma cotação considerada boa...)

Em resumo, dólar a 2 reais é um fato do mercado e da conjuntura.

Muitos analistas acham que, neste momento, a cotação correta do dólar seria algo em torno de R$ 1,93 - isso considerando uma série de cálculos complicados e chatos, envolvendo taxas de juros locais e internacionais e o risco Brasil embutido nos títulos brasileiros lá fora. Enfim, uma parafernália que não vale a pena explicitar aqui.

Mas acredite: analistas de peso, como o ex-presidente do BC Gustavo Loyola, entendem que a cotação atual está fora dos parâmetros técnicos.

E por que isso acontece? Expectativas.

Dado o déficit mais alto que o esperado no comércio externo, o mercado passa a acreditar que o BC estaria até forçando uma alta do dólar - e consequente desvalorização do real - para estimular as exortações.

Acrescente que diretores do BC e do Tesouro andaram falando nos planos do governo de comprar até US$ 3 bilhões no mercado local neste ano - e o pessoal interpreta: está vendo!?, eles vão comprar para segurar um piso . . .

Isso posto, de nada adianta diretores do BC e do Tesouro explicarem que os US$ 3 bilhões são um teto para as compras; que o Tesouro não vai comprar se o mercado não estiver bom; que o Tesouro não vai comprar se isso for afetar irregularmente as cotações.

Depois que saiu a notícia da compra, tudo o mais passa a ser acessório.

Enfim, incorporou nas expectativas.

Acrescente o fracasso do primeiro leilão das novas bandas de celulares, pelas quais o BC contava com um ingresso de pelo menos US$ 3 bilhões de operadoras estrangeiras.

Ponha na panela a perspectiva de recessão nos EUA - o que diminuiria os investimentos de companhias americanas aqui - e vai se formando um quadro de menos dólares entrando, mais dólares saindo, e a cotação sobe...

Aí vem o último lance: como o dólar está subindo, o pessoal que vai precisar de moeda americana (importadores, agências de viagens, por exemplo) tratam de antecipar compras. E com mais demanda, a cotação do dólar sobe mais um pouco.

Eis aí a coisa toda.

No que se refere ao conjunto da economia brasileira, o importante é notar é que altas do dólar não têm provocado impacto significativo na inflação. Há mesmo alguns cálculos dizendo que, abaixo de R$ 2,20, o dólar não causa inflação.

Como a meta do governo é com a inflação - 4% neste ano - e como as coisas caminham dentro da meta, qual o problema?

Eis por que muita gente acha que a cotação do dólar vai cair logo que houver alguma alteração no humor. Que pode acontecer tão instantaneamente como a variação para pior nos últimos dias.

Mesmo porque continuam saindo vários indicadores na outra direção. Por exemplo, que bancos e empresas brasileiras estão aproveitando a queda dos juros nos EUA - e, pois, no mercado internacional - para antecipar captação de recursos lá fora.

Mas um dado realmente forte para reduzir a expectativa de alta do dólar seria uma recuperação no comércio externo.

Na manhã de terça, o mercado estava assim: dólar em queda, bolsa em alta, juros em queda.

Mas mercados mudam. . . .

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

São Valentim – 14 de fevereiro

São Valentim
"Tem o maior jeito de fruta, não tem?"


Abro os olhos ainda sonolentos, assim como outros dias abro pensando que estou em Recife, que minha mãe vai vir me acordar. Uhhh, estou longe de casa, nesse caso vale colocar uma soneca no despertador... Mal fecho o olho o danado despertador toca novamente, será que eu programei esse maledito para tocar depois de um minuto? Só pode ser isso!

O negócio é deixar de preguiça e levantar, afinal hoje vai ser um dia incrível, sinto até algo diferente no ar. O que será? Ah, foi a pia da cozinha que estourou ontem a noite, havia algo diferente no ar, era o mau cheiro.

Ainda estou meio doente, melhor ir para o trabalho, não agüento mais ficar em casa. Com o dia de ontem foram quatro que eu fiquei em casa por contra da gripe. Com certeza deve ser algum tipo de vírus africano super potente, nunca tinha ficado tão mal por conta de uma gripe. Chegando ao trabalho fiquei tonto, enjoado, todo mundo preocupado, e eu todo errado, detesto dar trabalho aos outros, mas, enfim... Dr. Sérgio me examinou mais uma vez, acho que é só birra mesmo. Que nada, estava mal, parecia estar de ressaca, com uma labirintite de dar gosto.

O dia passa e com certeza a conta do almoço me deixou mais ressacado. Fomos ao espaço bahia, o cardápio, um bife de vazia com legumes, modéstia a parte faço tão bom quanto. O precinho foi uma pechincha USD 30,00... ai meu bolso. Pelo menos a tontura melhorou, acho que agora a coisa vai.

Sorrir sempre, esse é o lema, mas ontem eu estava doido para dar umas porradas em alguém. O dia passou hora de voltar para casa, mais uma hora e meia de engarrafamento para percorrer vinte quilômetros e entro debaixo o chuveiro.

Chegando em casa, Sérgio me dá os parabéns. Eu pensei: pronto o bicho endoidou, devem ser os remédios que ele está tomando para a tendinite. Que nada, era o dia de São Valentim, se preferir, dia dos namorados. Eu não agüentei, xinguei Sérgio, afinal depois de um dia desses receber feliz dia dos namorados é lasca. Ele estava só me enchendo o saco, tirando uma da minha cara, ainda bem.... Pensando bem há motivos para os parabéns, não falam que casamos com o trabalho? Bom feliz dia dos namorados para o meu trabalho, afinal nossa união vai bem e eu continuo feliz da vida com ele, ou melhor com ela, a minha labuta.

Eu não falei que hoje seria um dia incrível? Melhorei da gripe, passei mais um ótimo dia de trabalho e pude até desejar um feliz dia dos namorados a minha querida Labuta. É verdade que a tal da Labuta me dá muito preocupação, cabelos brancos e por vezes um monte de estresse, mas, qual a mulher que não faz isso?

O santo são Valentim viveu no século XIX, abaixo a história dele publicada na wikipedia.



História de São Valentim
http://pt.wikipedia.org/wiki/Dia_dos_namorados

A história do Dia de São Valentim remonta um obscuro dia de jejum da Igreja Católica, tido em homenagem a São Valentim. A associação com o amor romântico chega depois do final da Idade Média, durante o qual o conceito de amor romântico foi formulado.

O dia é hoje muito associado com a troca mútua de recados de amor em forma de objetos simbólicos. Símbolos modernos incluem a silhueta de um coração e a figura de um Cupido com asas. Iniciada no século XIX, a prática de recados manuscritos deu lugar à troca de cartões de felicitação produzidos em massa. Se estima que, mundo afora, aproximadamente um bilhão de cartões com mensagens românticas são mandados a cada ano, tornando esse dia um dos mais lucrativos do ano. Também se estima que as mulheres comprem aproximadamente 85% de todos os presentes.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Vou plantar macaxeira

Conhecer os Angolanos tem sido uma experiência no mínimo interessante. Com o convívio diário, principalmente no curso de inglês onde posso conversar como igual, escuto histórias inusitadas e bastante curiosas.

Dizem que um dos problemas de Angola, produção de alimentos, não pode ser resolvido em algumas das províncias. O motivo é muito simples, não é permitido aos moradores do campo ara-lo. Mas como plantar em uma terra se arar essa?

Em uma propriedade pequena onde exista água é até normal que se deseje plantar algum alimento. Fico imaginando os nordestinos, pois o cenário é semelhante, e suas plantações de palmas e macaxeira. Mas qual o motivo de não se poder plantar?

O governo proíbe qualquer tipo de cultivo na terra. Ao se revirar um pouco a terra começa-se a encontrar pequenas pedrinhas que para o homem do interior tem pouco valor, contudo levando-se para a cidade causaria uma corrida sem precedentes ao campo. As pedrinhas que me refiro são diamantes.

Dizem que é possível encontrar diamantes no chão em algumas províncias de Angola. Arar o solo é proibido, pois esse ato desenterra muitos diamantes e o governo não deseja que estes saiam do país. Na verdade o problema não é nem que esse tesouro saia do país, mas que não sai do país sem ser pela mão deles.

Fico imaginando o pequeno agricultor mexendo na terra e dizendo: Droga de pedrinhas que atrapalham, o pior é que essas danadas são difíceis de quebrar.

Descobri um sonho de infância, eu sempre soube que eu tinha essa vocação, vou largar a computação e me dedicar a uma vida simples. Acho que vou comprar umas terras e ir para interior de Angola, quem sabe eu não faço feito os filhos de Francisco e viro cantor? Quem sabe não faço feito Lula, que saiu do interior Pernambucano – Garanhus, e viro presidente. Pensando bem acho que vou comprar um país com fruto do meu trabalho, vou viver de vender macaxeira. As pedrinhas, bom, eu guardo, nunca se sabe...

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Ficar doente em Angola

Hoje espero que seja o último dia que vou ficar em casa. Desde o sábado, quando acordei ruim, estou com uma febre e muitas dores no corpo, para me chatear ainda mais comecei a tossir ontem. Fui ao médico, é a primeira coisa a ser fazer aqui já que é preciso ficar atento aos casos de malária. Após um exame de urina e outro de sangue, o famoso “gota espessa”, o diagnóstico foi uma gripe. O alívio foi grande, malária seria bem pior, mas o gripe braba essa.

Muito raramente fico doente, mas dessa vez a virose me pegou de jeito. A dor no corpo é grande, dói um bocado por trás dos olhos. A febre vem e vai e com ela uma dor de cabeça que demora a passar. Para completar aqui em casa durante o dia fica-se mais tempo sem luz do que com ela. O calor está me matando. Estou tomando todos os remédios que o médico me receitou e amanhã eu não fico mas em casa por nada nesse mundo.

Nas raras vezes em que eu ficava doente, em Recife, a minha mãe me fazia muitos “dengos”. Esses dias em casa me fez pensar muito nela, gostaria muito que ela estivesse aqui. Ficar doente morando sozinho não é nada agradável, apesar de que Sérgio me dá uma força, mas não é a mesma coisa. Com certeza cada momento desses, longe, me faz repensar as minhas atitudes passadas e aprender a valorizar os momentos que daqui para frente eu venha a ter com minha família.

Mãe, estou com muita saudade da senhora, pena você não estar aqui. Te amo.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Abrir empresas em Angola - tarefa difícil


A medida que vou relatando as oportunidades em Angola, muitas pessoas me escrevem sobre a possibilidade de abrir uma empresa aqui. Encontrei uma matéria que fala do assunto, contudo não esgota o tema. Com certeza um dos principais requisitos para se abrir uma empresa aqui é ter alguém “forte” lhe dando apoio e respaldo. Problemas como logística, que comentei a pouco tempo aqui no blog, custo e burocracia podem minar e arruinar qualquer boa idéia.

Há de se colocar, pois fica nas entrelinhas do texto, que pequenos e micro negócios somente podem ser abertos por Angolanos. Com essa proteção de mercado o país limita muito o crescimento econômico e a criação de empregos. Difícil entender essa medida protecionista, caso algum leitor tenha uma idéia, inicie uma discussão.

Vale lembrar que Angola tem uma cultura socialista e somente agora começa a dar os primeiros paços rumo ao capitalismo.

Abaixo a matéria que fala sobre a burocracia de se abrir uma empresa em Angola.

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Burocracia dificulta constituição de empresas no país Jornal de Angola
http://www.angonoticias.com/full_headlines.php?id=13253


A excessiva burocracia, resumida na forte tributação e na dificuldade de obtenção de titularidade da propriedade, constitui um dos principais entraves à constituição de empresas em Angola.

A constatação foi feita ontem, em Luanda, pela Coordenadora Nacional do Programa Empresarial Angolano (PEA), Constância Silva, que apelou para o surgimento de mais instituições afins, com vista a ajudar as pessoas que pretendem criar empresas, tanto em nome individual quanto em nome colectivo.

O programa, segundo a responsável, visa simplificar o processo para o fomento do empresariado angolano. Aliás, este é o lema do fórum para a constituição de empresas, que se vai realizar no próximo dia 8 de Fevereiro, em Luanda.

Para Constância Silva, o evento é uma oportunidade ímpar que visa promover o diálogo entre as diferentes partes envolvidas na constituição de empresas, conciliando os interesses das entidades públicas com os dos representantes da classe empresarial.

“Devido à burocracia que se regista em todo o processo para se abrir uma empresa, o cidadão tem de desembolsar cerca de 100 mil kwanzas. Isso é um valor alto”, explica, a responsável, para quem a criação de condições para o fomento da pequena actividade económica, conforme a constituição da República, é uma obrigação do Estado.

As formalidades administrativas para a constituição de empresas são numerosas e mesmo complexas e restritivas, pondo em causa a modernização e, muitas vezes, a credibilidade das normas e das próprias instituições que as aplicam, segundo Constância Silva.

Para já, o fórum sobre “Constituição de empresas: simplificar para fomento do sector privado” é organizado pelo Programa Empresarial Angolano (PEA), em parceria com o Ministério da Justiça. Neste momento, mais de 100 pessoas estão convidadas, entre os organismos envolvidos na constituição de empresas e a sociedade civil, instituições académicas, classe empresarial e representantes de partidos políticos.

Os debates do encontro vão incidir-se em três aspectos, nomeadamente os requisitos, os prazos e carga fiscal para a legalização do início da actividade económica, os recursos que se prendem com o modo de funcionamento da administração pública e os incentivos no investimento privado.

Para o efeito, estão convidados a intervir quadros especialistas da Administração Pública e do sector empresarial privado, com destaque para o Guiché Único de Empresas, a Direcção Nacional de Impostos e dos Serviços de Cartório e Notariado, o Ministério do Planeamento, Ministério do Comércio, a Associação Fiscal Angolana, bancos comerciais, representantes do sector privado, entre outros.

Angola é o país da Comunidade de Desenvolvimento dos Países da África Austral (SADC) que apresenta um dos mais pesados processos burocráticos para a constituição de empresas, quer em nome individual, quer de sociedades.

Apesar das condições macro-económicas favoráveis, dos resultados da paz e das potencialidades que o país apresenta, Angola precisa de um melhor ambiente para o investimento privado interno, base sobre a qual será aplicado o investimento externo.

sábado, fevereiro 10, 2007

E-mail a Luana – Visão geral de Angola - versão para crianças

Recebi ontem um e-mail de uma sobrinha quer realmente me deixou muito contente – essa é a foto dela. Luana, filha de Lucas, um grande amigo meu, me escreveu, pois estava fazendo uma tarefa para o colégio. O dever dela era falar sobre um país e ela escolheu Angola porque eu estava aqui.

O fato é que me empolguei e o e-mail acaba dando uma visão geral do que é Angola. Achei que o texto ficou simpático e fácil de ler, assim decidi colocar no blog.

Coloquei abaixo o e-mail dela e depois a minha resposta.

Luanda, obrigado minha linda pelo e-mail. Um beijo enorme!

Luana e Lyud na minha despedida


E-mail de Luana

Oi tio Spindola so eu Luana. eu tenho uma foto de Luanda e adorei. ai é legal? é que a minha tarefa foi sobre fotos de paises que estava perguntando qual o Pais que eu mas gostei, ai eu disse eu mas gostei foi de Luanda e que eu gostaria de visitar Luanda porque la é linpo e tambem tem casas diferetes , você poderia manda fotos dai pelo o email e uma texto sobre Luanda. as crianças estudam? as pessoas trabalhâo?ai tem girafas? leaõ?gostaria que você pode traser alguma lembransa de luanda pra eu mostrar a minha professora e meus amigos. voce tem texto sobre Luanda? voce tirou fotos? tudo bem ta? um beijo


Resposta

Oi Luana

Fiquei muito contente com o seu e-mail, sempre que quiser me escreva, pois eu vou ficar muito feliz. Quando eu for para o Brasil prometo levar um presente especial para você. Vou comprar na feria de artesanatos do Benfica, que fica perto da minha casa.

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Luanda é a capital de um país chamado Angola, da mesma forma que Brasília é a capital do Brasil. Esse país, assim como o Brasil, foi colonizado por Portugal, desta forma aqui se fala Português. O país é dividido em 18 estados, sendo que os estados aqui são chamados de províncias.

A cidade de Luanda tem mais ou menos o mesmo tamanho de Recife. Uma curiosidade é que se você sair de Recife e vier em linha reta pelo mar, você chega exatamente em Luanda. Vivem em Angola aproximadamente 15 milhões de habitantes, que é quase a mesma quantidade de pessoas que moram na cidade de São Paulo. Dessas 15 milhões, mais ou menos 4 milhões vivem nas cidades, o restante das pessoas, 11 milhões, vivem em tribos e no campo. O nome do dinheiro de Angola se chama Kwanza, e 1 Real vale 40 Kwanzas.

Infelizmente em 1961 o país entrou em guerra. Inicialmente para se libertar de Portugal, então em 1975 os Angolanos conseguiram a independência, deixaram de ser colônia. Com a independência de Portugal, os próprios Angolanos começaram a lutar entre si para tomar o poder e o governo, com isso uma guerra civil aconteceu entre 1975 a 2002. Guerra civil é quando pessoas do mesmo país brigam entre elas mesmas.

Com o fim da guerra muitas pessoas vieram para Angola para ajudar a reconstruí-la, e é por isso que eu estou aqui. Eu trabalho para o ministério da saúde ajudando a cuidar de pessoas que tem Aids. Além de cuidar, trabalho para que outras pessoas não venham a ficar doentes. Existem além de Brasileiros, pessoas de todos os cantos do mundo trabalhando aqui, dentre os países China, Cuba, Portugal, Espanha, Estados Unidos, Colômbia, Canadá, Inglaterra, França, Coréia do Sul, etc...

Antes da guerra a capital Luanda era seis vezes menor que Recife. Por conta das brigas, muitas pessoas vieram para a capital, o que fez com que a cidade crescesse de forma desorganizada. Com a desorganização foram criadas as favelas que aqui são chamadas de Musseques.

Por conta da guerra muitas pessoas não estudaram, além disso, como a maioria das pessoas vive em tribos, a educação igual a nossa também não existem. No país há muitas crianças, contudo existem também muitos órfãos. Ouvi outro dia no rádio que existem pessoas do mundo todo trabalhando em Angola para encontrar as famílias das crianças órfãs, como tios e outros parentes. Muitas das crianças estão nas ruas e ficam a engraxar sapatos ou a pedir dinheiro.

Angola é muito rica e ao mesmo tempo muito pobre. É muito rica pois ela é um dos principais produtores de diamantes do mundo. Além disso, ela produz muito petróleo. Mas é pobre, pois a maioria das casas não tem luz elétrica nem água. Por sinal falta muita água e energia aqui, ficamos muito tempo utilizando geradores para poder ter luz elétrica em casa. Em Angola não tem ônibus, nem metrô, e as pessoas andam pela cidade em vans.

Apesar de toda a pobreza a cidade de Luanda não é perigosa. Aqui não acontecem assaltos a carro ou mesmo seqüestros como no Brasil. Aqui também não têm traficantes ou mesmo o crime organizado que escutamos no Jornal Nacional.

Angola já teve muitos animais, contudo, mais uma vez por conta da guerra, muitos deles foram mortos. Aqui perto de Luanda existe um parque onde os animais andam soltos. Eu nunca fui, mas dizem que tem girafa, leão e outros bichos. Além disso, existe um animal que só tem em Angola, o nome dele é “Palanca Negra Gigante”, estou mandando a foto dela. É um animal grande, do tamanho de um cavalo. Ele tem dois chifres enormes que fazem uma curva, e parece muito com um bode.
Palanca Negra Gigante


Espero que tenha gostado do que eu escrevi sobre Angola e caso deseje saber qualquer coisa a mais é só me escrever. Estou mandando algumas fotos, espero que você goste.

Um beijo grande do seu tio Spíndola.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Plano de saúde em Angola e no Brasil

Questões corriqueiras começam a ganhar importância quando se está fora do Brasil. A minha vida inteira tive plano de saúde, até porque convenhamos à saúde pública no Brasil precisa urgentemente de um médico. Existem planos de saúde internacionais, mas no caso de Angola não se aplica totalmente. Há de se prever ainda o período em que se está no Brasil ou ainda em um outro país que não o de trabalho, onde problemas podem ocorrer.

Durante a minha infância e adolescência minha mãe sempre foi muito criteriosa quando o assunto era saúde. Lembro que tínhamos o plano Goldem Cross que na época era considerado o melhor. Depois veio o Brasdesco, a Sulamerica e a Unimed. Quando os trabalhos começaram a deixar de ser estágio, a empresa fazia às vezes da minha mãe, e eu não me preocupava com isso. Bom, cá estou em Angola, e aqui não existe plano de saúde.

Para resolver esse problema as empresas fazem o seguinte. Criam uma espécie de plano de saúde para os seus funcionários. Na verdade nada mais é do que pedir a conta aos hospitais e a empresa paga. Por vezes a conta fica no próprio hospital, o funcionário não precisa desembolsar nada, a fatura é envida direto para a empresa. Além disso, existe um plano de saúde para grandes intervenções. No caso de sofrer um ataque cardíaco ou uma crise de apendicite, posso ser removido por um avião até o Brasil e lá ser tratado. Esse tipo de plano cobre apenas acidentes ou ocorrências fora do Brasil, além disso, é usado apenas em caso de grandes problemas. Consultas e coisas corriqueiras não se aplicam. Há ainda empresas que contratam um seguro de vida para o funcionário.

A saúde em Angola é algo realmente complicado. Diferentemente do Brasil que existem clinicas de sobra e dentistas a escolher, a situação aqui é diferente. Médicos só nos hospitais e mesmo assim é bem caro. Considere ainda que não dá para escolher muito o médico que vai lhe atender. Como solução, o melhor é ser tratado no Brasil.

A maioria dos profissionais de Angola tem no Brasil um plano de saúde bancado por ele mesmo, ou seja, a empresa não se pronuncia. Considero importante manter um plano no Brasil e a cada visita fazer um check-up e ir a todos os médicos que se deseja. Os tratamentos no Brasil além de melhores são mais fáceis de serem realizados, seguros e disponíveis.

Vem para Angola? Mantenha o seu plano de saúde do Brasil!

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Logística em Angola – grande desafio

Atualmente um dos livros que estou lendo – O mundo é plano http://www.americanas.com.br/prod/292949/BookStore?i=1, Thomas L. Friedman – fala sobre o processo de globalização e a realidade do outsourcing e terceirização. O autor coloca de forma muito clara a competição não mais entre os países e sim entre as empresas. Hoje não disputamos vagas como os Brasileiros apenas, mas com as empresas de todo mundo que terceirizam ou mesmo realização o trabalho intelectual em outros países.

Muito além da competição de trabalho, para se conseguir esse tipo de abstração, questões como a logística de distribuição de matérias primas tem que estar totalmente resolvidas e dominadas. No caso de Angola o problema é mais embaixo, a distribuição de alimentos é deficiente.

É comum, e já tenho visto isso nesses meses que estou aqui, que quando falta um produto em um mercado da cidade, como se em cascada, começa a faltar em todos os demais. Produtos como queijo que desde o final do ano não se encontra em nenhum mercado da cidade. Incrível que já se passou um mês do início do ano e continua faltando queijo. O pior é o caso da Coca Light que é produzida aqui em Angola e mesmo assim ficou algumas semanas sem vender na maioria dos lugares, restaurantes principalmente.

Fico imaginando um empresário que deseja abrir algum tipo de negócio em Angola que não seja de prestação de serviços. Vamos usar como exemplo uma lanchonete, uma franquia, o Mac Donald’s. Será que a haverá hambúrguer? Haverá pão ou mesmo o molho especial? O engraçado é que há a demanda, existe gente querendo vender, mas simplesmente não chega.

Onde estará o problema? As empresas de logísticas são incompetentes? Acredito que não, provavelmente deve haver várias empresas estrangeiras trabalhando aqui. O problema é da super demanda? Essa acho uma causa mais provável, mas não por falta de capacidade de atender os clientes por parte das empresas, mas do governo e da infra-estrutura.

O fato é que a logística aqui em Angola é algo complicado e com certeza limita bastante a realização de novos negócios. Basta dizer que o Shopping está tendo a sua inauguração adiada devido ao fato que as mercadorias das lojas simplesmente não conseguem chegar, ou ainda, a tela do cinema está presa em algum porto desses. Só para saber essas informações sobre o shopping vieram de uma amiga que trabalha para o shopping.

Problema de difícil solução esse, a única certeza é que a curto prazo o problema vai continuar.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Trabalho e Salário – Lições e saudades da MV

Com certeza se pensa o tempo todo em realização pessoal e felicidade, esse assunto se torna mais enfático quando adicionamos a vertente do trabalho. Afirmo que o trabalho é a sua vida, faz parte da sua vida, uma parte por sinal muito importante.

Hoje quando falo da minha antiga empresa MV, digo que ela foi a melhor coisa que me aconteceu. Como essa empresa me fez bem, agradeço muito aos anos que passei lá e a oportunidade e sorte que tive por estar nela. Contudo tive bons e maus momentos lá, o mais importante é que, passado algum tempo, consigo tirar lições de tudo o que passou. Principalmente melhorar e não cometer mais os erros do passado.

Com certeza uma das principais lições que tiro da MV é: Só uma pessoa pode motivar você e essa pessoa é você mesmo. Para que as coisas melhorem é preciso primeiro mudar a você e depois ter coragem para mudar o seu ambiente. De nada adianta saber que é preciso mudar mas não conseguir mudar. Ou ainda, fazer tudo para mudar e na hora certa não dar o passo decisivo. Sorte é oportunidade e competência, essa afirmação é conhecida, todavia colocaria mais uma palavra. Sorte é oportunidade, competência e coragem. A sorte é você quem faz e se você não procurar por ela provavelmente não vai achar.

Gostaria de destacar quatro grandes professores que o tempo me fez admirar: Genilson, Tonon, Pereira e Alexandre. Obrigado pelas lições e obrigado pela oportunidade.

Um texto bem interessante sobre trabalho eu li hoje, pensei de imediato nos meus amigos da MV. Gostaria de motivá-los e mais ainda que eles fossem bem sucedidos da MV e que tivesse coragem para mudar. Quando falo mudar, não me refiro apenas a sair da empresa, pois muitas vezes essa não é a solução. Mudar de dentro para fora e mais ainda, encontrar a motivação e a felicidade.

Saudades dessa grande empresa, MV Sistemas.

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Reconhecimento x salário: o que pesa mais nesta balança?
http://web.infomoney.com.br/templates/news/view.asp?path=/suasfinancas/&codigo=468687


Por: Waldeli Azevedo
06/02/07 - 19h00
InfoMoney

SÃO PAULO - A perspectiva de ganhar mais, de conseguir manter as contas em dia e ainda garantir a realização dos sonhos é, inegavelmente, a meta da grande maioria dos "mortais".

Porém, quem vivencia o ambiente corporativo sabe bem que a rotina não é fácil: você acumula tarefas, sofre pressão de todos os lados e, em alguns casos, pode encarar um local de trabalho nem sempre favorável.

Isso tudo sem falar que nem todos os chefes estão preparados para lidar com sua equipe, e a cobrança por resultados pode transformar o ambiente (e a vida dos funcionários) em algo muito desgastante. Neste caso, a pergunta é: apenas um bom salário compensa tudo isso?

Forças aliadas
Embora nem sempre isso seja possível, o melhor seria aliar remuneração com reconhecimento, fazendo com que as duas forças se mantenham em equilíbrio: isso significa ter seu trabalho valorizado pela sua equipe, pelo seu chefe ou pelo seu cliente, tanto no aspecto "moral" quanto "financeiro".

Caso, a princípio, tudo isso pareça utópico demais, principalmente diante de um mercado de trabalho acirrado, saiba que, no dia-a-dia, cedo ou tarde, o descompasso em um destes ingredientes poderá motivá-lo a procurar um novo emprego. Se você não passou por esta situação, com certeza um dia se deparará com ela!

Pense a respeito: até que ponto dá para conviver com algo em que você não acredita, ou não sente afinidade? Considerando que você passa muito mais tempo no escritório do que em qualquer outro lugar, por quanto tempo conseguirá encarar o desafio de trabalhar apenas pelo "bom salário"?

Construa suas metas e valorize sua marca!
Sabendo da importância de reunir os dois elementos, o caminho é conquistá-los no seu dia-a-dia. Valorize o seu trabalho e saiba construir sua própria marca!

A melhor forma de conquistar novos degraus na sua escalada no emprego atual, é mostrar resultados, por meio do seu desempenho. De nada adianta pleitear aumentos, se você não fizer por merecer.

Por outro lado, conquiste o respeito e o reconhecimento em seu ambiente de trabalho. Caso este venha sendo um ponto de desmotivação, experimente listar tudo o que tem feito de positivo para a empresa e, no momento em que se sentir mais preparado, tenha uma conversa franca com o seu chefe, expondo o seu ponto de vista.

De forma clara e objetiva, apresente suas aspirações. Mostre-se pronto para novos desafios e observe muito bem quais as suas reais perspectivas. Boa sorte!

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Situações difíceis – Acidente de trânsito – Parte 2

A independência e a possibilidade de ir e vir a qualquer hora aqui em Angola realmente fica prejudicada. Estamos sujeitos a problemas em qualquer lugar do planeta, mas as conseqüências podem ser diferentes de acordo com o local onde os problemas acontecem. Lidar com cabeça fria e sempre tirar algo positivo, uma lição de toda situação é o mais importante.

Lembro bem quando estava em casa no Brasil e simplesmente me dava na telha ir ao shopping, ou mesmo visitar um amigo. Podia ser a qualquer hora e quase qualquer dia, mas o fato é que a minha independência era algo precioso e que eu gostava muito. Com certeza não me encontro preso, muito pelo contrário, mas a questão é que além de ter que dividir o veículo com outras pessoas, também são poucas as opções de lazer ou de coisas a se fazer. Ficar em casa é o programa mais comum, com um bom livro, as conversar com Sérgio, um filme e meus pensamentos, além disso, é seguro ficar em casa.

A palavra segurança foi colocada de propósito, afinal todo cuidado e pouco na casa dos outros, todavia quando falo casa dos outros me refiro ao país. Semana passada um acidente de transito me deixou temeroso e ainda mais fechado ao meu apartamento. Uma profissional do grupo se envolveu em um acidente com o carro que ela estava a conduzir e que teve como conseqüência a morte de uma criança. Pelo que me foi falado ela não teve culpa sendo um carro que veio a se evadir do local o responsável. Contudo o fato é que com a participação dela o óbito da criança tomou proporções complicadas. A começar pela população local que por instinto já foram para linchar a mulher. Graças a alguns comerciantes esse fato não se concretizou. Ela pegou a criança nos braços e a levou para o hospital. Chegando com a criança já morta, foi presa no local e passou a noite na cadeia de Luanda. Aparentemente foi feito um acordo com a família mediante a pagamento de uma indenização de USD 2.000,00, mas tenho certeza que tanto o trauma para a família como para a profissional são muito maiores que a simples resolução do assunto.

É fato que estamos susceptíveis a problemas em qualquer lugar do mundo, em Angola, contudo há o agravante de ser branco além da possibilidade de ser linchado. Situação difícil essa. Há quem diga que o melhor é fugir do local e deixar o problema para trás. Já escutei casos semelhantes em que o condutor foi morto pela população, mas como ficaria a cabeça da pessoa, e os conceitos que aprendemos de ajudar ao próximo. Complicado lidar com esses conflitos internos e que tem que ser domados em meio à adrenalina e a consciência.

Como lidar com uma situação dessas, longe de casa, sem o apoio da família. Fico imaginando o quão assustada deve ter ficado essa mulher, sozinha, em uma delegacia de um país estranho, ainda mais quando o país tem todas as características peculiares de Angola. A melhor forma de lidar com isso é com certeza evitar que aconteça, logo, ficar em casa. Bom... Adoro meus livros!

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

4 de fevereiro, início da luta armada pela libertação de Angola

Hoje se comemora os quarenta e seis anos do início da luta armada pela libertação de Angola. A data, que é um marco para o novo regime político de Angola, culmina com a proclamação de independência no dia 11 de novembro de 1975.

Essa data, por sua importância, dá nome ao aeroporto da capital Luanda. O aeroporto internacional 4 de Fevereiro e a principal porta de entrada e saída de pessoas ao país. Apesar da sua importância, o aeroporto precisa de melhorarias na sua infra-estrutura e principalmente retirar as pessoas que ficam tentando tirar dinheiro, a todo o momento, dos passageiros. Sejam os facilitadores de fila, os seguranças ou o pessoal da alfândega, todos ficam a pedir dinheiro. A desorganização no embarque também é terrível, realmente não é uma experiência agradável ficar no aeroporto.

Uma data tão significativa para a nação gerou o feriado que se comemora na data de hoje. Meus parabéns para Angola e que os próximos anos sejam melhores que os que se passaram.

Como curiosidade o leitor deve ter notado que estou falando do feriado que acontece na segunda-feira, 05 de fevereiro, quando a data é 4 de fevereiro. Para o Angolano não se pode perder um feriado, assim, se o feriado cai no final de semana, automaticamente é passado para a segunda-feira. Interessante não?

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4 de Fevereiro: da libertação do jugo colonial ao alcance da paz efectiva Angop (Por Miguel César)
http://www.angonoticias.com/full_headlines.php?id=13238


Quarenta e seis anos são passados desde que um grupo de nacionalistas angolanos, armados com catanas, paus e outros objectos de defesa, lançaram assaltos em simultâneo à Cadeia de S. Paulo, à Casa de Reclusão de Luanda e outras instituições da administração colonial portuguesa, numa manifestação ímpar da vontade popular de liberdade e independência.

Este acto de bravura, protagonizado por nacionalistas na sua maioria de origem humilde, mas com um elevado sentido de patriotismo, incentivou os cidadãos nacionais a mobilizarem-se para a árdua luta pela autoderminação, dignidade e liberdade para governarem os seus próprios destinos.

O ataque, que marcou o rompimento com a opressão, ocorreu na madrugada de 04 de Fevereiro de 1961, uma data que passou a ser das mais importantes da história de Angola, a par do 11 de Novembro de 1975, altura em que Angola tornou-se independente.

Paiva Domingos da Silva, Imperial Santana, Virgílio Sotto Mayor e Neves Bendinha foram alguns dos responsáveis pela coordenação do assalto, que tinha como principal objectivo libertar os presos políticos angolanos, acusados pelo regime português de actividades subversivas a favor da independência de Angola.

O ataque realizado há 46 anos deveria ter envolvido cerca de 2.100 pessoas, mas as detenções realizadas nos dias anteriores na sequência de várias denúncias, fizeram reduzir esse número para algumas centenas.

Os preparativos do heróico acto começaram em Outubro de 1960, com questões mais práticas como manejar as catanas ou desarmar uma sentinela.

Os treinos decorriam durante a noite no município de Cacuaco, arredores de Luanda, passando depois para o Cazenga, quando os nacionalistas começaram a recear as infiltrações da Pide, a polícia política portuguesa.

A escolha do dia do ataque teve em atenção o facto de estarem na capital angolana nessa altura muitos jornalistas estrangeiros que aguardavam a chegada a Luanda do paquete Santa Maria, assaltado alguns dias antes no alto mar por um grupo liderado por Henrique Galvão, um oposicionista do regime de Salazar.

Quando ficou claro que, afinal, o navio não viria para Luanda e os jornalistas começaram a preparar-se para abandonar a capital angolana, os nacionalistas decidiram lançar o ataque antes que fossem todos embora. Esta acção levou António Oliveira Salazar a enviar para Angola os primeiros contingentes militares destinados a reforçar os reduzidos efectivos destacados em Angola.

O regime colonial fascista reagiu brutalmente e respondeu com uma acção de repressão em todo o país, com assassinatos, torturas e detenções arbitrárias contra os nacionalistas e várias pessoas indefesas, acto que levou alguns nacionalistas a organizarem-se para a luta de libertação.

Este ano, o 04 de Fevereiro é comemorado numa altura em que os cidadãos se predispõem a continuar fiéis aos ideais dos nacionalistas, lutando pela consolidação da paz e reconciliação nacional, um projecto que visa catapultar o país aos níveis de desenvolvimento que permitam elevar o bem-estar das populações e aprofundar e consolidar o Estado democrático de direito.

Alcançada a paz, cada cidadão deve absorver os exemplos de bravura, sabedoria e heroísmo de todos quantos se bateram pela libertação da pátria, com vista a incutir nos construtores desta nova nação a firmeza necessária à edificação de um país forte, próspero, democrático e plural.

Os cinco anos de paz, devem servir de reflexão sobre os desafios que se impõem a cada cidadão, que é chamado para dar o seu contributo na árdua tarefa da reconciliação, para que a guerra nunca mais regresse.

Só assim estaremos a honrar todos aqueles que directa ou indirectamente verteram o seu sangue para uma Angola livre e democrática.

O 04 de Fevereiro está a ser assinalado com diversas actividades políticas, culturais, patrióticas, recreativas e desportivas.

O ponto mais alto das comemorações tem lugar na vila do Golungo Alto, que dista 54 quilómetros a norte da cidade de Ndalatando, capital da província do Kwanza Norte, com inaugurações de empreendimentos socio-económicos, como de uma escola do II e III níveis, do hospital local e da via rodoviária entre Golungo-Alto e Ngonguembo.

domingo, fevereiro 04, 2007

Situações difíceis – Morte por Malária – Parte 1

Muitos são os desafios de se morar fora, principalmente em se morar em Angola. Com certeza sou mais influenciado pelo cotidiano que meu amigo Sérgio, haja vista que ando muito mais na rua e percebo com mais impacto o cotidiano de Luanda. Sérgio, que trabalha perto de casa, tem, por exemplo, que pegar menos engarrafamento, lidar com menos Angolanos e coisas do tipo. Entretanto há eventos que nos influenciam de forma igual e negativa.

Logo que votei das minhas férias fiquei sabendo de um caso que aconteceu com uma Brasileira que faz parte da holding de empresas. Apesar de não trabalhar diretamente comigo, um dos meus amigos era muito amigo dela. A pessoa em questão, assim como eu, foi para as férias de final de ano no Brasil. Em Angola os casos de Malária ou Paludismo são realmente muito freqüentes. Aqui se houve que uma pessoa está com Malária da mesma forma que se houve no Brasil que alguém está gripado. Como os casos acontecem a todo instante, o tratamento é eficiente e todos que aqui estão já ficam atentos para a probabilidade de estarem doentes. Felizmente no Brasil não se ouve falar de casos de malária, pelo menos nas grandes cidades, eu por exemplo nunca havia conhecido uma pessoa que tivesse ficado doente de malária. Realmente é bastante distante da nossa realidade, ficando reservado aos filmes a visualização dos sintomas.

Ao sair de Angola, a mulher carregava consigo a malária. Chegando em casa, doente, ela tratou de procurar um médico. Infelizmente por haver poucos casos e por incompetência, no meu modo de ver, do corpo médico da cidade dela, a Malária não foi diagnosticada, pensaram ser um caso de dengue. A Malária, conforme descrevi em um post anterior, é uma doença que ataca muito o fígado e tem um efeito devastador nas defesas da pessoa. Como o tratamento apropriado não foi dispensado a paciente, esta veio a falecer.

Impressionante como a decisão de vir morar na África, nesse caso, influenciou a vida dessa mulher. É fato que estamos sujeitos a morrer a qualquer instante, até mesmo no Brasil, ou melhor, principalmente no Brasil devido a violência, contudo morrer por erro de diagnóstico é algo muito grave.

No nosso dia a dia os cuidados para evitar a contaminação são muito grandes. Passamos o final de semana, enquanto em casa, com as janelas sempre fechadas. A noite também não abrimos nenhuma porta ou janela, ou seja, estamos sempre trancados no ar-condicionado. O mesmo se aplica aos carros e trabalho. O uso de repelente também é constante, e devo dizer que nos horários de maior risco, que são o início da manhã e fim de tarde, realmente não é nada animador sair de casa.

A decisão de vir para Angola é algo sério, vir para Angola não, sair do seu universo para se aventurar em qualquer país. Tem que se desejar muito estar aqui, estar morando e convivendo fora de casa. No caso de Angola estar preparado para as limitações e as restrições, conforme coloquei em um dos meus últimos post.

Na lembrança da perda dessa pessoa o meu desejo de conforto a família e paz para o espírito.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Cotidiano dos Brasileiros que trabalham em Angola

Com a segunda volta para Angola, o deslumbramento dá espaço a rotina. As novidades já não são constantes, já sei como andar na cidade e que lugares ir. Fiz alguns amigos fora do meu grupo e até nas aulas de inglês entrei.

Quando estive no Brasil conversei com muitas pessoas que me perguntavam curiosas sobre a vida em Angola. Recebo também muitos e-mails de leitores do blog querendo saber como é a vida aqui e se vale a pena. Afirmo sem sombra de dúvida, vale cada dia. Contudo importante é saber das limitações e desafios que fazem parte do dia a dia.

Quando se está trabalhando em Angola há uma série de desafios a serem vencidos extra trabalho e as oito horas de expediente. A começar pelas oito horas de trabalho que se transformam em dez ou doze, então se você veio para trabalhar, tem que estar disposto a isso, nada de ficar reclamando do horário. A independência de ir e vir fica bastante limitada. No Brasil é normal termos carro, ou pelo menos conhecer as linhas de ônibus, aqui não tem isso. Como não tem sistema de transporte público, apenas as Kandongas, para fazer qualquer coisa é preciso ir com o carro da empresa. O veículo é dividido com outras pessoas do trabalho, assim, se você quiser fazer alguma coisa logo após as 18:00h é necessário combinar com todo mundo. Fica-se muito limitado aos horários do grupo e mesmo tarefas simples, como ir ao supermercado, tem que ser combinadas. Sair a noite só se ninguém mais for usar o carro.

Outro é dividir o apartamento com outra ou outras pessoas que você até então não conhecia. As pessoas são diferentes e pode haver casos em que não se gosta do perfil outra, é bom ter muita paciência, ser maleável, bom em resolver conflitos e sociável. Fica impossível conviver se você for uma pessoa difícil de tratar. Viver em grupo e pensando no conjunto, o tempo todo, esse é outro desafio.

Imagine dividir o apartamento, o carro, o trabalho e nos finais de semana estar sempre com as mesmas pessoas. Poucas opções de diversão e aquelas mesmas pessoas para conversar e ser relacionar.

Os desafios de relacionamento e de restrição de autonomia são realmente fatores a serem considerados. Eu dei muita sorte, me dou muito bem com todos os que convivo diariamente. Mais ainda, o meu amigo, pois nos tornamos realmente amigos, que divide o apartamento comigo, Sérgio, é um cara muito gente boa. Dei sorte.

Você está preparado para Angola?