Mostrando postagens com marcador agua. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador agua. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, junho 11, 2007

4 dias sem luz e sem água

Tive que fazer uma pausa nas histórias do acampamento, essa não dá para passar sem colocar no blog. Senta que lá vem história...

Ao virar na esquina de casa uma cena me salta aos olhos. Quinhentos metros a minha frente o condomínio totalmente apagado, uma única luz não havia. Interessante que os postes de iluminação estavam todos acessos. É hoje.

Logo na manhã da sexta, horas antes da imagem à cima, já acordei com a novidade, estamos sem água e energia. Oh maravilha, hora de me preparar para um daqueles banhos de gato com apenas uma garrafa de água de mineral de 1,5 litros. Espero que dessa vez eu e Sérgio não tenhamos esquecido de comprar as garrafas, coisa que fazemos com muita freqüência. Lá estavam elas, as duas últimas. Sérgio desistiu de tomar banho, já eu, criei coragem, peguei as duas garras eu me caminhei cabisbaixo para o banheiro.

Tem todo um processo para se conseguir tomar banho com 1,5 l de água. Começo molhando o cabelo, mas só um pouquinho, ainda bem que o apartamento estava um forno, a água está até quentinha. :) Xampu 2 em 1, lógico, passar duas vezes está fora de questão. Agora é passar no cabelo bem rápido, pois tem que aproveitar o corpo um pouco molhando para passar o sabonete. Oh saudade do dia que a casa inundou e o banheiro ficou cheio de água, se fosse hoje eu ria tomar banho na frente da pia, feliz que só pinto no lixo. Volta, volta, não viaja não que água acaba. Já todo ensaboado o esquema agora é colocar água na cabeça e agitar os dedos rapidamente, pois tem que aproveitar a água descendo para tirar o sabonete do corpo. Lavar todas as partes está fora de questão, só as principais, como embaixo dos braços e nos lugares em que se lavar não foi banho. É, não está ótimo, mas dá para passar. Será que realmente preciso de uma toalha? Hora da barba. A outra garrafa é para isso, barba e dentes. Esse foi mais fácil.

Eu juro, vou matar o sindico, oh administração, sei não. Fiquei sabendo que ficaram 18 meses sem pagar a conta de luz do condomínio. A uns 10 dias a companhia de energia foi lá e cortou definitivamente, ou melhor até normalizar o pagamento. O gerador nesses dias estava trabalhando sem parar e na madrugada da quinta para sexta ele deu seu último suspiro. Tive vontade de ir eu mesmo dar uma olhada no danado, sei que não entendo nada de gerador, mas pelo menos eu podia xingar de perto e quem sabe dar um chute para ver se pegava no tranco feito àquelas televisões velhas.

Por enquanto estou só falando da sexta-feira, fui dormi sem banho, quer dizer, só com o banho de gato que tomei pela manha. A expectativa era que no sábado, até o meio dia, o reparo no gerado fosse realizado.

Sábado pela manhã, abri só um olho, deixei a luz acesa para saber se a energia havia voltado. Votasse? A lâmpada estava lá do mesmo jeito que eu deixei na noite anterior, ou seja, apagada. Só me dei ao trabalho de fechar o mesmo olho e voltei a dormir na vontade de quando acordasse novamente tudo estivesse normal. O desejo foi tão grande que sonhei com luz, muita luz e muita água. Acordei no susto, corri para o banheiro, sonhar com água dá uma vontade de fazer xixi. Droga tudo apagado, e a essa altura o banheiro já estava sujo, ainda não estava em nojo, mas isso é só uma questão de tempo, ainda tempos o fim de semana todo pela frente.

Sérgio nem em casa estava, ai que saudade do Brasil onde isso não acontecia. Eu sei que é cair na mesmice, contudo só damos valor às coisas quando perdemos. Mesmo correndo o risco dos mosquitos com malária abri as janelas de casa, estava um abafado incrível. Almoço vamos lá. Sem água vamos gastar todos os pratos, a pia já começou a dar os primeiro sinais que iria ficar cheia. Perto da geladeira me sinto úmido. Olhar para o chão foi o tempo de ter um Deja vu, acho que foi do meu sonho. O chão cheio de água. A geladeira a mais de um dia desligada fazia a maior água. Como pode um objeto tão pequeno vazar tanta água, é mal comparando um lago essa minha cozinha. Fiquei feliz pela primeira vez de esquecemos de comprar comida, nem tinha muita coisa para estragar. Peguei um último suco pela metade que havia na geladeira e preparei um sanduba, o que mais daria para fazer?

À tarde Sergio chega feliz da vida dizendo que estão todos indo para os prédios de uns amigos tomar banho. Antes que ele pudesse perguntar se eu iria eu já estava na porta pronto, sacolinha na mão e tudo. O cabelo, depois da noite sem banho, estava duro, e eu mais parecia um punk todo arrepiado. Não teve escova ou pente que baixasse o maledito, não verdade só piorou. Minha cabeça parecia ter um balde em cima, a barba também estava mal feita, eu era a própria visão do inferno. Ao chegar na casa de Fred, meu amigo dono do banheiro, oh inveja que estou sentindo dele, tomei um dos banhos mais maravilhosos de toda a minha vida. Fiz a barba e escovei os dentes, eu parecia até gente agora. Isso é que é felicidade.

Sábado à noite estava marcada a festa de aniversário de Clarissa na quadra do prédio. Sem energia tiveram que arranjar um gerador pequeno que infelizmente não pode ser usado para ligar a bomba d’água. Passei o resto do tarde bem quietinho para não suar, afinal banho era uma lenda. A festa foi massa e eu tomei algumas, queria chegar anestesiado em casa e ir direto para a cama. Como já havia dormido muito da sexta para o sábado meu medo era de ficar acordado feito um doido, me batendo dentro de casa.

Domingo pela manha. Precisamos de vela urgentemente, pra ontem, melhor pra sexta. O que vou fazer no dia de hoje, o cabelo está de volta à posição original, ou seja, rock and roll. Passei o dia na cama, sem banho e tentando beber pouca água. O meu maior medo é ir no banheiro, tenho certeza que de dentro daquela sujeira que já se acumula a dois dias vai sair um bicho. Para dormir eu tranco a porta do quarto, não tem que me tire da cabeça que vai sair alguma coisa do vaso sanitário.

Ah, domingo, nada de banho, fiquei em casa, ninguém merece olhar para mim hoje. O cheiro ainda não estava insuportável, mas isso é só uma questão de tempo. À noite, já com as velas compradas, fiquei lendo, na verdade passei o dia todo lendo. Foi lindo, no mínimo romântico, três velinhas e eu lá, parecia mentira, mas não era. Fui dormir pedido para sonhar com água e energia novamente.

Segunda-feira, dia de trabalho, fui à casa de Fred novamente. Entrei correndo e quase não dei bom dia. Tem noção do que é a pessoa dois dias sem tomar banho? Banho tomado, estou novo. Vamos para o trabalho, agora é esperar pela noite e ver ser vai ser mais uma noite romântica a luz de velas.

sexta-feira, março 23, 2007

Catinga X Sebo. Qual a diferença?

Qual a primeira imagem que vêm a sua cabeça quando falamos a palavra África? Na minha vem a idéia das savanas, o Egito, o deserto do Saara, imagens de muita terra e pouca água. Nesses tempos em que o assunto do momento é o aquecimento global, a questão da água aparece sempre atrelada às discussões.

No Brasil falamos muito sobre seca, hoje em dia menos que nos meus tempos de criança, mas a verdade é que o meu país é super-privilegiado nas reservas hídricas. A água é barata e em abundância, talvez por isso demos tão pouco valor.

Agora junte as palavras África e água, qual o resultado da sua cabeça? Na minha é outra palavra “caos”. Vivendo aqui vejo como essa situação é difícil. A cidade de Luanda que é tomada por grandes Musseques (favelas) tem sérios problemas de abastecimento de água. As pessoas não têm acesso a água em casa. Todos os dias pela manhã, vejo muitas crianças e mulheres indo as vias principais onde os carros passam para pegar água. Algums casas nas via principal, onde devem passar as tubulações de água, tem uma torneira no muro que fica virada para a rua. Nessas torneiras é que se juntam as pessoas todas as manhãs para pegar água em reservatórios ou mesmo em baldes e bacias. São muitas as filas na via e muitas pessoas carregando baldes na cabeça ou em carrinhos se dirigindo as suas casas. Toda manhã a mesma cena.

A higiene é algo que para os padrões que estou acostumado ficam muito a desejar, na verdade a falta de assepsia é algo cultural em Angola. Existem duas palavras para o cheiro “fedor” dos brancos e dos negros. O dos brancos é chamado de “sebo” e nos negros “catinga”, assim se um negro “fede” é chamando de catingoso, já um branco “seboso”. Para o Angolano no não ter catinga é algo broxante. Algumas Angolanas, como a empregada da minha casa, já me disseram que os homens rejeitam as mulheres que não tem catinga. Vai entender...

Esse é um assunto extenso vou me detalhar em pontos específicos em post’s mais a frente. Por hora a lição que já está mais do que repetida: Valorizem a água.


Em tempo: Olha a definição do Aurélio para Musseque.

musseque
[Do quimb. museke, ‘quinta’; ‘lugar de areia’.]
Substantivo masculino.
1.Angol. Bairro pobre na periferia de Luanda, capital de Angola (África):
“Os musseques são bairros humildes / de gente humilde” (Agostinho Neto, Sagrada Esperança, p. 38).


Musseque de Angola - Bairro do Rocha Pinto



Água um bem precioso mas mal gerido em Angola
http://www.angonoticias.com/full_headlines.php?id=13889


A distribuição de água por pessoa estimada em 1.000 metros cúbicos dia é deficiente em Angola enquanto que entre regiões ela escasseia de Norte a Sul tornando mais de um terço do território desértico ou semi desértico o que contrasta com os números sobre o potencial hidrográfico.

Por ocasião do dia mundial da água, que hoje se assinala sob o lema «Enfrentando a escassez de Agua», o Ministério da Energia e Águas de Angola escreve em uma nota distribuída em Luanda que para fazer frente a ma distribuição do precioso líquido tem já aprovado planos directores de curto e médio prazos para as diferentes cidades do país.

Assim «estão a ser desenvolvidos esforços para por em marcha um programa de obras de regularização das principais bacias hidrográficas de modo a torná-las potenciais armas de combate aos fenómenos extremos de cheias e seca».

O potencial hidrográfico de Angola, em conjunto com os dois Congos, representa mais de metade dos recursos hídricos do continente africano, sendo considerado por especialistas como uma provável mola impulsionadora da integração económica e social da África Central.

De acordo com a última edição do Relatório Económico de Angola, a água existente nos três Estados atinge a fasquia dos 60 por cento, onde Angola se apresenta como um dos principais beneficiados.

A título de exemplo, a pesquisa refere que a região angolana entre os rios Kwanza e Catumbela (províncias de Malanje, Bié, Huambo, Benguela, Kwanza Norte e Sul) concentra 80 por cento do potencial hídrico inventariado no país.

Deste potencial, o rio Kwanza, o maior de Angola, detém 45 por cento, podendo ser nele construídas 11 barragens. No entanto, no médio Kwanza já estão edificadas as centrais hidroeléctricas de Kapanda e de Cambambe, existindo entre as duas mais sete projectos do género.

O estudo também faz referência à bacia hidrográfica do rio Keve, onde poderão ser edificados oito projectos. Não parando por aí, as projecções do Relatório Económico de Angola avançam a possibilidade de construção de dez barragens na bacia do rio Lucala, enquanto no Cunene estão planeados 12 esquemas hídricos.

No dia mundial da água, a OMS recorda que mais de 1,6 milhões de pessoas morrem anualmente por falta de água potável e um sistema básico de saneamento. Destes afectados 90% são crianças menores de cinco anos.

Quando a agua rareia, diz a OMS, muitos populares vêem-se obrigados a abastecer-se de água não salubre e em quantidades insuficientes que não chega para a higiene pessoal.

Ainda esta semana Organizações Não Governamentais e governos de todo o mundo reunidos em Bruxelas numa assembleia do Parlamento Europeu sobre a água defenderam a necessidade de se reconhecer a água como um direito humano e que a gestão deste precioso líquido não deve ficar sobre tutela de empresas privadas, mas sim dos Estados.